Dra. Roberta França - Geriatra Barra da Tijuca

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Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - RJ,

A todos que atrevessam o rio

6/11/2018

Durante muitos anos, vi a morte como algo cruel, doloroso e desleal.

A própria faculdade de Medicina, nos ensina a ver a morte como falha, erro, frustração.

Esses sentimentos sempre me assombraram e me perguntava como iria sobreviver a medicina, onde vida e morte são tão naturais como acordar e dormir.

 

Mas a vida é sabia, ela se encarrega de nos ensinar... sempre!

Meu avô estava doente havia muitos anos , um câncer hepático que disseram que ele viveria apenas 6 meses e lá estávamos já faziam 5 anos !!! Mas a doença progredia e um dia tudo piorou... Ele foi internado, estava muito grave.

 

Sai do Rio direto pra Minas para vê-lo. 

Ao chegar naquela enfermaria , vi a cena que mudou para sempre minha vida.

Um homem jazia na cama , tão magro, tão pequeno, tão cinza... se não houvesse uma placa em cima da cama com seu nome eu jamais poderia dizer que era meu avô! Ele era grande, robusto, rosto de índio, pele parda.

 

Ele não estava mais ali.

Minha avó ao pé da cama segurando sua mão e sua alma, rezava para ele viver.

E no canto, numa cadeira, um homem com olhar derrotado, encarava meu avô chorando... seu médico de tantos anos!

Eu não sabia o que me doia mais.

 

Me aproximei do médico perguntei se estava tudo bem, ele respondeu " do que adianta mais de 40 anos de Medicina para ver um paciente morrer assim".

Desabei! Talvez um dos momentos mais importantes da minha formação como médica e como ser humano. Entendi que eu talvez jamais aceitasse ou compreendesse.

Entendi que chorar por um paciente não é feio, talvez seja o único gesto possível!

Entendi que sofrer por um paciente não te faz um médico fraco, mas um ser humano melhor !

 

Fui até meu avô. Olhei longamente para ele e pela primeira vez pensei na morte como uma benção, um bálsamo, um alívio...

Ele jamais suportaria viver daquele jeito.

Ele não merecia aquele sofrimento.

A morte era sua liberdade.

Pedi minha vó que fosse um pouco pra casa ... que saísse um pouco, que parasse de pedir pra ele ficar. Ela foi embora... Ele também.

 

Até hoje quando vejo uma corrida de fórmula 1, uma moda de viola, uma orquídea, pipoca saindo da panela ou um monte de paçoca, penso no meu avô.

Que saudade do vovô.

Mas tenho certeza que ele está bem... muito melhor que naquela enfermaria.

Sei que ele é anjo da guarda.

Sei que ele olha por nós.

Sei que ele só atravessou o rio... mas está logo ali, basta entender aos mãos... fazer uma oração e sentir com o coração.

In memoriam do meu vô Walter de quem nos últimos dias senti imensa saudade .

Essas fotos são parte da nossa história.

 

Roberta França 

Medicina Geriátrica 

De corpo e Alma 

 

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