Dra. Roberta França - Geriatra Barra da Tijuca

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Av. Luís Carlos Prestes, 410 Sala  321
Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - RJ,

Para quem é o Tratamento ?

5/10/2018

Recebi no consultório uma família pela primeira vez: a mãe de 94 anos, a filha cuidadora e esposo . A paciente claramente num processo demencial, esquecida, um pouco confusa e com importante perda auditiva. Falava frases isoladas, ria por vezes, pedia beijos e sorria, uma fofura!

 

A filha a minha frente por quase 1 hora falou sem parar e sem respirar! Me contou todas as patologias da mãe muito idosa ( não esqueçam 94 anos !) hipertensão, cardiopatia gravíssima, diabética, câncer de tireoide ressecado, hipotireoidismo, fraturas e mais uma dezena de problemas. Falou de sua peregrinação por inúmeros médicos e um sem fim de exames entre sangue, urina, ultras e até mamografia !!!

 

Ouvi com respeito e tranquilidade. Quando ela finalmente parou eu perguntei " o que está acontecendo aqui?" Ela surpresa nao entendeu. Nova pergunta " pra que tanto exame, tanto remédio e tantos médicos? ISSO TUDO É PARA TRATAR SUA MÃE OU O SEU DESESPERO "? Ela me olhou perplexa, baixou os olhos, balançou a cabeça e disse " não sei " e o choro finalmente aconteceu. Talvez após meses, ela tenha finalmente parado para se perceber, se olhar e principalmente se escutar. 

 

Foi a minha vez de falar, falar e falar. 

Vamos lá, vamos nós aqui refletir sobre tudo isso que você falou.

Aos 94 anos sua mãe tem dezenas de doenças importantes porém controladas, está clinicamente estável e claramente está feliz. É amada e bem amparada por você ( não pelos demais filhos ) . Diante disso precisamos refletir. Primeiro, não se submete uma senhora de 94 anos a mamografia, um exame doloroso e já sem nenhum valor nesta idade.

 

Qual o sentido de realizar tomografia, ultrassonografia e até urodinamica porque ela tem "bexiga arriada" se ela não pode operar nem se submeter a nenhum tratamento como rádio ou quimioterapia? Qual a função desses exames? Todo exame tem como objetivo rastrear uma patologia dentro de uma possibilidade diagnóstica dada pelo médico para posteriormente tratar caso se confirme . Se eu nada posso fazer do que adianta submeter o paciente a tal procedimento por vezes difícil e doloroso? De novo te pergunto " quem estamos tratando?" 

 

Na minha rotina como geriatra percebo que muitas vezes essas peregrinações intermináveis por médicos e laboratórios é mais para tratar o desespero de filhos e familiares do que verdadeiramente para ajudar o paciente . 

 

Ela ouviu tudo em silêncio e depois perguntou: "mas e então, eu nao faço nada?" Claro que faz... faça o que já está fazendo! Ame! De muitos beijos, muito carinho, abrace, curta cada momento, tire fotos, converse com ela. Ela está muito bem dentro da realidade dela, de suas doenças e idade. E no dia que ela tiver que partir será lembrada por todo amor que deu e recebeu . E você viverá na certeza que fez o seu melhor.

 

E isso basta!

" Doutora não aceito a morte e nem estou preparada para perda la"

Eu sei! Por isso daqui pra frente vou tratar você! Vamos conversar e você fará terapia. Vamos juntas aprender . A lei natural da vida é que ela vá antes de você... e você vai descobrir que não precisa cuidar 24 horas por dia para se sentir útil e feliz. 

 

Neste dia não examinei a paciente nem a consultei 

Entendi que a consulta era verdadeiramente para sua filha 

Na saída nos abraçamos longamente 

Ela me olhou no fundo dos olhos e disse " muito obrigada Doutora, foi Deus mesmo que me trouxe até aqui " 

Sorri e agradeci o carinho 

Quando ela saiu olhei pra cima e agradeci... 

É na geriatria que encontro ELE  todos os dias.

 

Dra Roberta França 

Medicina Geriátrica 

De corpo e Alma 

www.geriatrarobertafranca.com.br

 

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